A Verdadeira Origem do Tarô: Mitos, Verdades e a História que Nunca Te Contaram 🕵️♂️
O Tarô não nasceu em templos misteriosos ou em rituais de magia negra. Ele surgiu nos salões de palácios luxuosos, como um passatempo exclusivo para a elite europeia. 🏰
Neste primeiro artigo da série Tarô em Essência, você vai descobrir a verdadeira jornada dessa ferramenta: quem a criou, para que ela servia originalmente e o segredo de como um simples jogo de cartas se transformou no maior espelho da alma humana e da espiritualidade moderna.
Prepare-se para desmistificar o significado do tarô!
Quem criou o Tarô e onde ele surgiu pela primeira vez?
Para entender de onde veio o Tarô, precisamos viajar no tempo até a Itália do século XV, em pleno Renascimento.
Esqueça as salas escuras com velas e bolas de cristal. O cenário real aqui são os banquetes e a ostentação da altíssima nobreza de Milão e Ferrara.
O Baralho Visconti-Sforza e o luxo do Renascimento Italiano ✨
Por volta de 1440, famílias extremamente ricas e poderosas, como os Visconti e os Sforza, decidiram criar um entretenimento exclusivo para suas cortes.
Eles encomendaram a artistas renomados da época um baralho especial, que foi batizado de Tarocchi (ou Trionfi). Não havia nenhuma intenção mística inicial ali.
O Tarô original era um jogo de salão, muito parecido com o xadrez em termos de estratégia, usado para apostar dinheiro e entreter os convidados após os jantares nobres. 🎲
As cartas sobreviventes mais antigas do mundo, que hoje compõem o famoso Tarô Visconti-Sforza, eram verdadeiras obras de arte de luxo.
Elas não eram impressas em papelão comum; eram pintadas à mão, uma a uma, e cobertas com folhas de ouro autêntico e detalhes em prata.
✨ Ter um baralho desses em casa era o equivalente renascentista a ter um carro de luxo na garagem: uma demonstração pura de poder, riqueza e status social.
A anatomia do jogo: Como nasceram os Arcanos Maiores e Menores 🎲
Para dar vida a esse jogo, os nobres uniram duas estruturas que mudariam para sempre a anatomia das cartas:
- O Baralho Comum: Eles integraram as cartas numeradas e as figuras da corte (potes/copas, moedas/ouros, espadas e bastões/paus) que já circulavam na Europa. Esse sistema numérico veio originalmente do Oriente Médio através dos baralhos islâmicos Mamluk. Esses se tornariam os Arcanos Menores.
- Os Trunfos (Trionfi): Para deixar a dinâmica do jogo mais emocionante, os duques adicionaram cartas extras com imagens marcantes da cultura da época. No jogo, essas figuras serviam como "trunfos" — ou seja, cartas mais fortes que venciam as outras no tabuleiro. Esses trunfos seriam conhecidos, séculos mais tarde, como os Arcanos Maiores.
Mas como essas cartas de trunfo eram na prática?
Se o jogo foi feito para a nobreza apostar dinheiro, as imagens precisavam fazer sentido para a mente daquelas pessoas.
É aqui que entramos em um universo de símbolos que revelam os maiores segredos, medos e desejos da sociedade da época. Vamos olhar de perto a anatomia dessas imagens originais.
Qual é o significado original das cartas de Tarô?
Quando olhamos para essas imagens impactantes dos trunfos hoje, é fácil imaginar que elas foram desenhadas com códigos ocultos. Mas a realidade é que a origem do tarô funcionava como um "filme" ou a "cultura pop" da sociedade renascentista medieval. Cada carta era um reflexo direto do mundo real em que aquelas pessoas viviam. 🎭
Imagine-se caminhando por uma cidade italiana no século XV. Para você, olhar para a carta do Imperador (IV) ou do Papa (V) não traria nenhum mistério oculto; você veria ali as duas maiores forças políticas e espirituais que governavam a sua vida.
O mesmo acontecia com as virtudes da Justiça, da Força e da Temperança, que eram os pilares morais ensinados para as pessoas desde a infância pela Igreja Católica.
Até os medos mais profundos daquela sociedade estavam estampados no papelão.
A carta da Morte (XIII) refletia as memórias ainda vivas da devastação da Peste Negra, enquanto o Diabo e o Julgamento Final eram temas constantes nos sermões dominicais e nas pinturas detalhadas das catedrais góticas.
O Tarô era, essencialmente, a vida medieval ilustrada para um jogo de salão.
O mistério dos números e a flexibilidade dos primeiros baralhos.
Essa conexão com a vida real era tão forte que até a estrutura dos jogos mudava conforme o gosto da nobreza.
Hoje, temos a ideia fixa de que o Tarô sempre teve exatamente 22 Arcanos Maiores, mas o início desse universo foi marcado por experimentações.
Antes do formato que conhecemos se consolidar, o formato dos trunfos variava. Por volta de 1420, o chamado Baralho de Marziano da Tortona, encomendado pelo Duque de Milão, trazia apenas 16 cartas especiais baseadas em deuses clássicos gregos.
Para os intelectuais da corte, o número 16 não era por acaso: refletia o pensamento humanista da época e estruturas clássicas de organização.
Pouco depois, com as variantes encomendadas pela família Visconti-Sforza ao longo do século XV, o jogo evoluiu e se expandiu, adotando a estrutura que se tornaria o padrão: 21 cartas de trunfo mais o Louco.
Os nobres customizavam os baralhos para homenagear membros da família em pinturas luxuosas e ajustar as regras das cortes italianas. Foi esse dinamismo, e não uma revelação mística pronta, que moldou o Tarô.
Conforme o jogo se espalhou pela Europa, a estrutura de 21 trunfos mais o Louco se padronizou por puro funcionamento prático das regras de pontuação e vazas dos salões. A padronização foi um processo de evolução cultural e social.
Segredos de design e curiosidades do Tarô de Marselha.
Essa evolução deu um salto gigante quando o Tarô deixou os palácios luxuosos e ganhou as ruas com a invenção da prensa de Gutenberg. Impresso em massa, o jogo se espalhou pelo povo e encontrou seu lar definitivo na França, onde nasceu o modelo mais famoso do mundo: o Tarô de Marselha (século XVII).
Gravadas em blocos de madeira (xilografia) e pintadas com cores primárias vibrantes (azul, vermelho, amarelo e verde), as cartas ganharam contornos pretos fortes e pequenos detalhes visuais que escondiam histórias curiosas da época:
- A Carta Sem Nome: O medo da palavra "Morte" era tão grande no cotidiano medieval que os impressores franceses decidiram deixar a carta XIII sem nome na base, exibindo apenas o número romano para evitar atrair má sorte. 💀
- O Enigma da Papisa (II): A figura de uma mulher sentada com a tiara papal era uma clara alusão ao mito popular da Papisa Joana, uma lenda urbana medieval sobre uma mulher que teria governado a Igreja disfarçada de homem até ser descoberta. 👑
- O Enforcado Invertido (XII): Ver um homem pendurado de ponta-cabeça pelo pé era algo familiar para os italianos e franceses. Essa era a "pittura infamante" (pintura infame), um castigo visual usado nos muros das cidades para envergonhar publicamente traidores e criminosos financeiros graves. A carta representava a punição máxima ao ego e à reputação.
Com o Tarô de Marselha, os trunfos finalmente foram numerados e batizados de forma fixa.
As pessoas ainda usavam o baralho estritamente para apostar e jogar nas tabernas locais, sem imaginar que aquelas imagens do cotidiano logo se tornariam o maior sistema esotérico do ocidente. 🍻
O Tarô parecia destinado a ser apenas isso: um passatempo popular de taberna que desapareceria com o tempo. No entanto, o destino dessas 78 cartas mudou drasticamente quando elas cruzaram a fronteira da França e caíram nas mãos de intelectuais parisienses.
Foi o início de uma transformação radical, onde um simples jogo de cartas foi "sequestrado" para se tornar o maior sistema de magia e ocultismo do ocidente. Prepare-se para entender como o jogo virou misticismo.
🔮 Como o Tarô se transformou em um instrumento esotérico e espiritual? (Séculos XVIII e XIX)
Por mais de 300 anos, a história do tarô correu sem qualquer associação com a previsão do futuro ou o misticismo.
No entanto, no final do século XVIII, o destino do baralho mudou drasticamente em Paris. Ele foi adotado por intelectuais e ocultistas que olharam para aquelas imagens francesas e enxergaram um sistema de sabedoria oculta criptografado.
Antoine Court de Gébelin e o mito do Egito Antigo.
O grande responsável por essa transformação foi um clérigo, arqueólogo amador e intelectual francês chamado Antoine Court de Gébelin. Em 1781, enquanto visitava amigos, Gébelin observou um grupo de pessoas jogando o Tarô de Marselha. Sendo um homem fascinado por civilizações antigas, ele teve uma epifania visual.
Gébelin declarou publicamente que aquelas cartas não eram um mero passatempo de taberna, mas sim as páginas sobreviventes de um livro sagrado do Antigo Egito: o lendário Livro de Thoth.
Segundo a sua teoria, os antigos sacerdotes egípcios teriam disfarçado seus segredos espirituais mais profundos em forma de jogo de azar para garantir que o conhecimento sobrevivesse à destruição dos templos, confiando que a heresia e o vício dos homens manteriam as cartas circulando através dos séculos.
Hoje, a arqueologia moderna sabe que essa história foi totalmente inventada por Gébelin.
Naquela época, os hieróglifos egípcios sequer haviam sido decifrados (a Pedra de Roseta só seria encontrada anos mais tarde).
Ele não tinha nenhuma base histórica ou linguística, mas o mito era tão magnético que acendeu uma faísca incurável no esoterismo europeu. O Tarô nunca mais voltou a ser apenas um jogo.
Etteilla: O Primeiro Tarólogo Profissional da História.
Logo após as publicações de Gébelin, um fabricante de sementes francês chamado Jean-Baptiste Alliette — que assinava sob o pseudônimo invertido de Etteilla — percebeu o potencial comercial e místico daquela descoberta.
Em 1789, ele publicou o primeiro livro focado exclusivamente na leitura divinatória do Tarô e criou o primeiro baralho modificado especificamente para o esoterismo.
Etteilla foi o homem que introduziu a prática de ler as cartas invertidas (de ponta-cabeça) e atribuiu significados astrológicos rígidos a cada uma delas.
Ele limpou os elementos cristãos medievais das cartas e redesenhou os símbolos para que parecessem mais "egípcios", transformando a leitura de cartas em uma profissão lucrativa em Paris.
Eliphas Lévi e a conexão do Tarô com a Cabala judaica.
No século XIX, o Tarô deu seu passo definitivo para dentro do ocultismo ocidental pelas mãos do mago Eliphas Lévi.
Ele percebeu uma coincidência estrutural e matemática que mudaria o esoterismo para sempre: o fato de existirem exatamente 22 trunfos no Tarô de Marselha correspondia perfeitamente às 22 letras do alfabeto hebraico e aos 22 caminhos da Árvore da Vida na Cabala judaica.
Lévi teorizou que o Tarô era a chave para entender todas as ciências ocultas.
Foi sob a influência dessa corrente que o baralho ganhou formalmente os termos "Arcanos Maiores" (os Grandes Segredos) e "Arcanos Menores" (os Pequenos Segredos), derivados do latim arcanum.
As figuras que antes retratavam o cotidiano medieval foram rebatizadas como portais para forças universais e arquetípicas.
| Antes (Até 1780) | Depois (Pós 1781) |
| Cartas de Trunfo (Trionfi) | Arcanos Maiores e Menores |
| Contagem de pontos nas mesas | Chaves para o Inconsciente |
| Símbolos do cotidiano da época | Símbolos do Antigo Egito |
| Entretenimento e apostas | Ferramenta de Alta Magia |
Com a estrutura mística e matemática desenhada pelos ocultistas franceses, o Tarô ganhou o status de "livro sagrado". Mas o sistema ainda era complexo e restrito a sociedades secretas.
Para se tornar a ferramenta popular de autoconhecimento que usamos hoje, o Tarô precisava de duas coisas: uma revolução visual que falasse com o povo e uma validação da própria ciência da mente.
É essa última grande mutação que vamos explorar agora.
Qual é a origem do Tarô Moderno e seu Uso na Psicologia?
No início do século XX, o Tarô passou por sua última grande mutação.
Ele rompeu as barreiras dos círculos fechados de magia e das sociedades secretas para se transformar em duas coisas que definem seu uso hoje: uma obra de arte universal e um espelho para a psicologia humana.
A Ordem da Aurora Dourada e o baralho Rider-Waite-Smith.
Para entender o Tarô moderno, precisamos viajar para a Inglaterra vitoriana. Foi lá que surgiu a Hermetic Order of the Golden Dawn (Ordem Hermética da Aurora Dourada), uma sociedade secreta que reunia intelectuais, poetas e magos.
Dois membros dessa ordem foram responsáveis por revolucionar o baralho: o acadêmico Arthur Edward Waite e a artista Pamela Colman Smith.
Até aquele momento, os Arcanos Menores (as cartas numeradas de 1 a 10) eram extremamente simples no Tarô de Marselha — exibiam apenas os objetos repetidos, como dez espadas cruzadas ou quatro taças.
Waite teve a visão de que cada uma das 78 cartas deveria contar uma história visual completa através de ilustrações claras.
💡 A Genialidade Esquecida de Pamela Colman Smith.
É aqui que entra uma das maiores injustiças da história do Tarô.
Quem realmente deu vida ao baralho moderno foi Pamela Colman Smith, uma artista e ilustradora que misturou influências do teatro vitoriano e da arte japonesa para desenhar cenas humanas ricas em simbolismo.
A Inovação do Cenário: Pamela transformou o "Dez de Espadas" em uma cena dramática de um homem caído na praia com dez lâminas fincadas nas costas sob um céu escuro. O "Três de Espadas" virou um coração partido perfurado por três lâminas sob a chuva.
O Apagamento Histórico: O baralho foi publicado em 1909 e batizado apenas como Rider-Waite (Rider era o nome do editor e Waite o idealizador).
O nome de Pamela foi omitido da capa por décadas, e ela morreu sem receber os devidos créditos autorais pelo design de Tarô mais vendido e copiado do planeta.
Hoje, o meio esotérico busca corrigir isso chamando o baralho de Rider-Waite-Smith (RWS).
Carl Jung e os Arquétipos nos Arcanos do Tarô 👁️
Enquanto o baralho RWS ganhava o mundo, na Suíça, o famoso psicólogo Carl Gustav Jung começava a olhar para essas cartas sob uma ótica simbólica profunda.
Embora Jung nunca tenha criado um baralho próprio, ele o mencionava em seus estudos sobre os símbolos da mente humana.
Jung percebeu que as figuras do Tarô (como o Rei, a Imperatriz, o Louco, o Diabo) não eram criações aleatórias, mas sim representações puras dos arquétipos — imagens e padrões de comportamento universais que habitam o "inconsciente coletivo" de toda a humanidade, independentemente da cultura ou da época.
Sob essa perspectiva psicológica, a leitura do Tarô mudou de foco:
- Deixou de ser: Uma tentativa supersticiosa de adivinhar eventos futuros externos inflexíveis.
- Passou a ser: Uma ferramenta de projeção terapêutica. Quando uma pessoa olha para a imagem do Eremita ou da Torre, o cérebro projeta naquela cena os seus próprios medos, bloqueios e desejos internos que estavam escondidos no subconsciente. O Tarô virou um mapa para o autoconhecimento e para a tomada de decisões conscientes no presente.
A Essência Viva do Tarô.
A história da origem do tarô nos mostra que ele é o maior camaleão cultural da história do ocidente.
Ele começou sua jornada como um jogo de cartas ostentoso e banhado a ouro para divertir duques na Itália do século XV; foi impresso em blocos de madeira para o povo nas tabernas da França; foi transformado em um misterioso livro egípcio pelos ocultistas parisienses do século XVIII; e, finalmente, encontrou seu propósito atual como uma ferramenta de desenvolvimento pessoal, arte e conexão psicológica no mundo contemporâneo.
Entender essa origem limpa o preconceito e mostra que o verdadeiro poder do Tarô não está em prever o inevitável, mas sim na sua capacidade milenar de traduzir a experiência e as dores humanas em símbolos vivos.
Quando alguém embaralha essas cartas hoje, está tocando em séculos de história, filosofia, arte e psicologia aplicada.
No Próximo Artigo...
Agora que você já conhece a biografia completa do próprio Tarô, que tal descobrir a vida fascinante, os escândalos e as mentes brilhantes que moldaram essas cartas atrás das cortinas?
No próximo texto da série Tarô em Essência, vamos mergulhar na história dos principais autores do Tarô.
Vamos revelar desde as brigas de ego do criador do primeiro Tarô esotérico até os segredos da sociedade secreta que deu origem ao baralho mais famoso do mundo. Fique atento para não perder!
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Vamos desmistificar essa ferramenta juntos! 🔁
Anderson O Tarólogo.





